quinta-feira, 14 de maio de 2009

O ESSENCIAL FAZ A VIDA VALER A PENA

Contei os meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquela menina que ganhou uma tigela de cerejas.
As primeiras, ela chupou-as displicente, mas percebendo que faltam poucas, até rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabarolices.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projectos megalómanos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milénio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos factos a limpo".
Detesto fazer acareação de desafectos que lutaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou:
"as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.
Quero a essência, a minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na tigela, quero viver ao lado de gente humana, muito humana;
Que sabe rir dos seus tropeções, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora,
Não foge da sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do Bem.
Caminhar perto de coisas e pessoas verdadeiras, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.
Ruben Alves

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A QUALIDADE EM SAÚDE

O conceito de qualidade em saúde pode ser exprimido de diversas formas.
Obtemos certamente várias respostas se colocarmos a diversos interlocutores a questão: - quais são os atributos dos cuidados que permitem definir diferentes graus de qualidade em saúde?
É a partir dessa diversidade de opiniões que podemos construir uma definição de qualidade em saúde.
Se dirigimos a citada pergunta aos doentes (utentes), a sua valorização será orientada em primeiro lugar para atributos como a acessibilidade aos serviços de saúde, a equidade desse acesso, para a envolvente dos cuidados, bem como dos apoios existentes.
Os profissionais de saúde, no entanto, tendem a privilegiar a excelência profissional (qualidade técnica dos procedimentos) e os resultados dos cuidados.
Em contraponto, os gestores dos serviços considerarão em primeiro lugar a eficiência e a efectividade dos cuidados.
Finalmente, os responsáveis pelas entidades pagadoras dos serviços de saúde terão em conta o número de doentes que recebem cuidados num determinado período de tempo, o custo por episódio ou tratamento, os resultados dos cuidados e, por exemplo, a atenção para com os seus beneficiários.
Se reflectirmos sobre essas opiniões, creio que podemos chegar a uma definição que faz a síntese de todas elas: - A qualidade em saúde é o grau ou nível em que os serviços aumentam a probabilidade de efeitos desejáveis dos cuidados, realizados em tempo útil, e diminuem a probabilidade de efeitos indesejáveis, tendo em conta o estado da arte e a maximização da sua efectividade ao melhor custo.
A efectividade dos cuidados significa o grau de sucesso dos resultados obtidos, tendo em vista os benefícios pretendidos, no contexto específico, ou seja, nas condições reais em que se realizaram. Se o fossem nas condições ideais falaríamos em “eficácia”. A “efectividade ao melhor custo” significa tirar o máximo partido de um conjunto de recursos através da sua combinação da forma mais adequada para a obtenção de determinado objectivo.
A propósito deste conceito, é oportuno registar a diferença em relação à “eficiência”: - esta significa a optimização dos resultados com minimização dos custos, ou seja, tirar o máximo partido de um conjunto de recursos articulados e usados sempre de uma determinada forma.
Partindo da definição (conceito) de qualidade em saúde atrás referida, é fácil perceber quão difícil se torna garantir a referida qualidade, nomeadamente por exigir um esforço permanente de antecipação de risco e, consequentemente, de acções preventivas em relação ao mesmo.
Para melhor compreensão do que afirmo, vejamos como decorre o processo assistencial:
- O doente (utente) está presente durante o processo assistencial, porque ele faz parte do próprio processo de produção do serviço (é nele que reside o problema que justifica a prestação de cuidados);
- O processo de produção e consumo do serviço (prestação dos cuidados e usufruto dos mesmos) é simultâneo.
Esta característica de prestação de serviços (presença do utente, produção e consumo simultâneos do serviço, o doente/utente faz parte do processo de produção do serviço) é completamente distinta da que se verifica noutras áreas de actividade: - por um lado, pelo “bem” que está em causa (a saúde), por outro porque não existe um espaço temporal entre a produção e o consumo.
Quando existe separação entre a produção e o consumo, é possível levar a efeito um conjunto de acções que verifiquem a qualidade do produto e, dessa forma, o cliente ter garantida a qualidade do mesmo quando o vai consumir.
Em suma: - se do processo de produção resultar defeito no produto, há possibilidade deste ser rejeitado, não chegando a ser colocado à disposição do cliente.
O produto defeituoso tornou mais cara a produção geral, mas não afectou a qualidade do que efectivamente é colocado à disposição do cliente.
Entretanto, identificada a causa do defeito na produção, podem adoptar-se medidas correctivas para evitar a repetição da situação.
Na produção de serviços de saúde, como se percebe, a realidade é completamente diferente.
Um erro na produção do serviço traduz-se, inexoravelmente, por não qualidade do mesmo, com maior ou menor impacto no doente/utente.
Com frequência, é possível corrigir o erro após a sua constatação. Porém, as consequências do mesmo (mais ou menos evidentes, com ou sem gravidade) já não podem evitar-se.
No entanto, sem falsos dramatismos, na prestação de cuidados de saúde os erros podem ser fatais.
O lema de “fazer bem à primeira vez e sempre” é de grande acuidade na prestação de serviços de saúde.
O exposto conduz-nos à necessidade de ponderar um outro aspecto:
- O que é que caracteriza o trabalho (processo assistencial) nos serviços de saúde?
Em minha opinião devem realçar-se, por um lado, a forma como se desempenha esse trabalho e por outro o tipo de procedimentos que incorporam.
Quanto à forma de desempenho, devem referir-se como características fundamentais a multidisciplinaridade, a interdependência dos profissionais e, finalmente, a permanente preocupação com a efectividade e eficiência do mesmo.
Do ponto de vista dos procedimentos, é por todos reconhecido que há procedimentos frequentes (de rotina), realizados por muitas pessoas diferentes; há procedimentos imprevistos (alguns raros) e outros realizados em situações de grande stress.
Sustentados nestas características concluímos facilmente que uma importante fonte de falhas de qualidade na prestação de cuidados são problemas no processo de produção de serviços, embora se tenha que levar em conta uma outra origem, que se prende com falhas de pessoas a realizarem o seu trabalho específico, individual.
É clássico o conhecimento de que as oportunidades de melhoria de qualidade na produção de serviços de saúde se traduzem em 85% dos casos por melhoria de desempenho da organização (processo assistencial) e só em 15% pelo desempenho individual (Juran).
De tudo o exposto é razoável concluir que quanto mais irreversível e de maior custo é o processo de produção de um bem ou serviço - como é o caso da saúde e do processo assistencial - maior empenho tem que existir não só em examinar a qualidade final do bem ou serviço produzido mas principalmente em conseguir garantir a melhor qualidade possível durante todo o processo de prestação/produção do serviço.
Assim se entende que a implementação de um sistema que permita promover a melhoria contínua de qualidade dos serviços prestados é condição indispensável e inadiável para o bom desempenho das unidades prestadoras de serviços de saúde.
A essa necessidade também conduz, aliás, a constatação de que o progresso da ciência médica e da tecnologia aumentou as expectativas das populações; que é evidente uma maior consciencialização dos seus direitos; que os custos implícitos na prestação de cuidados são cada vez mais elevados e não podemos esquecer o princípio da justiça distributiva e que já é uma realidade a evolução para a separação e consequente contratação entre entidades prestadoras e entidades pagadoras de serviços de saúde.
Para além disso, com a eliminação de barreiras entre os países da União Europeia (UE) – e consequente livre troca de bens e serviços - destaca-se a importância de possuir objectivos de qualidade claramente definidos, bem como dispor de sistemas de medição do seu cumprimento.
É nosso dever assumir por inteiro tudo o que decorre da nossa opção de integrar a UE, nomeadamente no que à saúde dos cidadãos diz respeito.
É obviamente importante a definição de alguns objectivos de qualidade incluídos nos Contratos Programa com as diversas instituições prestadoras de serviços de saúde, como tem vindo a acontecer.
Preocupa-me, no entanto, o facto de que não seja obrigatória a implementação de um Sistema de Gestão da Qualidade em todas essas instituições, bem como o desconhecimento mais ou menos generalizado do que isso significa, por parte de muitos profissionais que integram as respectivas equipas de gestão de topo.

sexta-feira, 13 de março de 2009

O ESPÍRITO DE UMA ORGANIZAÇÃO...

Mais um extracto de um texto da autoria de Peter Drucker que, pela sua pertinência intemporal, considero ser merecedor da nossa mais profunda reflexão...
A prova da sinceridade e seriedade da gestão reside no intransigente ênfase que se dá à integridade de carácter.
Esta característica, acima de tudo, tem de estar simbolizada nas decisões que dizem respeito à gestão de “pessoas”.
Porque é o carácter através do qual uma liderança é exercida; é o carácter que dá o exemplo e é imitado.
O carácter não é algo com que se possa enganar as pessoas.
As pessoas com quem alguém trabalha, especialmente os seus subordinados, sabem em poucas semanas até que ponto ele ou ela é ou não íntegro.
Podem perdoar uma pessoa por imensas coisas: incompetência, ignorância, insegurança ou más maneiras. Mas nunca perdoarão a falta de integridade…
Isto é particularmente evidente no que diz respeito a quem chefia uma empresa. Porque o espírito de uma organização é criado a partir do topo.
Se uma organização for “grande” de espírito, isso é porque o espírito de quem está no topo é “grande”.
Se decresce, será porque o topo apodrece.
Conforme diz o ditado, “as árvores começam a morrer por cima”…
Manegement: Tasks, Responsabilities, Practices - Peter Drucker

quarta-feira, 11 de março de 2009

É UMA DECISÃO NECESSÁRIA ?

Reflexão para quem tem responsabilidades na gestão…
Não se devem tomar decisões desnecessárias, da mesma forma que um bom cirurgião não faz operações desnecessárias.
As decisões desnecessárias não só são uma perda de tempo e de dinheiro mas também ameaçam tornar todas as decisões ineficazes.
É importante que se seja capaz de distinguir entre decisões necessárias e desnecessárias.
Dos cirurgiões provém, talvez, o melhor exemplo de tomada de decisões eficazes, uma vez que têm de tomar decisões arriscadas diariamente.
Atendendo a que não existem cirurgias isentas de risco, as operações desnecessárias têm de ser evitadas.
As regras utilizadas pelos cirurgiões para tomaram decisões são:
- Regra um: - numa situação em que é provável que a cura aconteça por ela mesma ou que estabilize sem risco, perigo ou dor para o paciente, deixam-no em observação e controlam-no com regularidade. Mas não operam. Fazer uma cirurgia nestas condições é uma decisão desnecessária.
- Regra dois: - numa situação degenerativa e que coloque a vida em risco, e em que existe alguma coisa que possa ser feita, ela é feita – rápida e radicalmente. È uma decisão necessária, apesar do risco.
- Regra três: - este é o problema que fica entre as duas regras anteriores e é, provavelmente, a categoria mais individualista – uma situação que não é degenerativa e que não coloca a vida em risco mas que, mesmo assim, não se corrige sozinha. È nestas ocasiões que o cirurgião tem de avaliar entre risco e oportunidade.
Esta é a decisão que distingue os excelentes cirurgiões dos outros.
The Effective Executive – The Elements of Decision Making - Peter Drucker