quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A RESPONSABILIDADE E A CULPA

Em Portugal confunde-se a responsabilidade com a culpa.

A primeira é vaga e impessoal, a segunda costuma morrer solteira.

O que se passou (e passa) no Hospital de Santa Maria com a cegueira provocada em seis doentes por evidentes más práticas é paradigmático.
Sabemos que errar é humano e sabemos que o erro não tem as mesmas consequências, uma das formas de avaliar a sua gravidade.
Em saúde, todos os erros são graves e por isso mesmo devem absolutamente ser evitados. Para isso servem os procedimentos, os protocolos, as guide lines.
Um hospital é como que uma complexa linha de produção e para um acto cirúrgico, por exemplo, concorrem diversos técnicos de diferentes serviços cujas competências e atribuições estão, à partida, perfeitamente definidas, e em cada segmento dessa linha de produção devem existir mecanismos seguros de verificação dos procedimentos obrigatórios em termos de segurança.
Assim, quando um erro é cometido, pode-se inferir que a culpa (negligência, má prática, o que seja) é de um determinado serviço, mas a responsabilidade é do hospital, que não é um mero edifício, mas uma organização com uma natureza jurídica própria que responde, no seu conjunto, pelos serviços que presta e os actos que pratica.
É também por isso mesmo que um hospital tem uma cadeia de comando, hierarquias que definem não apenas os níveis de responsabilidade como um modelo orgânico teoricamente adequado à melhor complementaridade das múltiplas funções e dos inúmeros actos que concorrem para o resultado final.
Assim, quando um doente entra num bloco cirúrgico é suposto que todas as condições estejam reunidas para que essa cirurgia se pratique de acordo com o estado da arte: desde a esterilização ao material de consumo clínico, passando pelos medicamentos e o bom estado de funcionamento de toda a tecnologia necessária.
Não vale de nada ter uma boa equipa de cirurgia se tudo o resto for assim-assim, como não vale de nada que tudo o resto seja excelente se o cirurgião for incompetente.
Posto isto, seria legítimo esperar que desde o primeiro momento a administração do hospital tivese vindo a público assumir a responsabilidade do ocorrido, face aos doentes, aos seus familiares e à opinião pública, independentemente de se accionarem todos os procedimentos necessários, internos e externos, para o apuramento dos factos.
Assumir responsabilidades é a parte mais incómoda do estatuto de quem manda, mas convém não esquecer que os lugares de topo só existem porque é preciso identificar fora e dentro da instituição quem a representa e quem são os seus responsáveis máximos.
O que vimos, estupefactos, foi precisamente o contrário: uma novela com telefonemas anónimos e toques de sabotagem, um passar de culpas, um capote permanentemente sacudido.
Algo gravíssimo porque um sistema de saúde assenta na confiança, porque um doente é um ser humano particularmente vulnerável que se confia nas mãos daqueles que cuidam, tratam e curam, porque um hospital como Santa Maria se presume como uma capacidade instalada de excelência.
Mais preocupante é o facto de só agora, e a propósito desta tristíssima ocorrência, a Entidade Reguladora da Saúde anunciar que vai avaliar todos os Serviços de Oftalmologia do País. Parece ser essa a prática de todas as nossas entidades reguladoras, aparecerem zelosas quando os escândalos rebentam…
Patética é a referência a um frigorífico sem termómetro na farmácia hospitalar de Santa Maria (porque será que não o substituíram? Não terão verba?) e bem conforme à nossa cultura está a afirmação do ilustre especialista canadiano Miguel Burnier sobre as melhorias “quase milagrosas” verificadas en três dos seis doentes.
De facto é o que somos, um país de milagres.

Mas, apesar de eu ser uma mulher de (e com) fé, prefiro juntar-lhe o provérbio popular “fia-te na Virgem e não corras e verás o trambolhão”.
Maria José Nogueira Pinto
in Diário de Notícias - 13/08/2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

REORDENAMENTO HOSPITALAR

Desde o dia 25/07/2009 que está em "discussão pública" o documento elaborado pela ARS Norte sobre "Reordenamento Hospitalar", que pode ser consultado no site desse organismo.
Sem prejuizo da sua cuidadosa análise, não posso deixar de manifestar desde já a maior estranheza em relação ao facto de ser anunciado que tal documento é colocado "à discussão pública", pelo seguinte:
- Algumas das "propostas" já foram transmitidas aos reponsáveis de algumas instituições, como decisões já assumidas - que por sua vez as comunicaram aos respectivos profissionais;
- Um documento desta dimensão e importância jamais deveria ser "colocado à discussão pública" em pleno período de férias, ou então não é genuína a vontade de obter contributos para a sua discussão;
- Levando em conta que a actual Comissão Directiva da ARS Norte terminou o seu mandato e que, segundo se afirma, as medidas "propostas" não serão para implementar a curto prazo, não se entende de todo a razão de ser do "timing" escolhido para a iniciativa agora tomada;
- Considerando, além do exposto, que a "discussão pública" ocorrerá em pleno período pré eleitoral, mais uma vez se torna evidente a má escolha do momento para a citada "discussão pública", visto que a ARS Norte não é um partido político e, portanto, não está na "corrida" às legislativas...
Só os seus autores poderão dar uma explicação para as observações que acabo de registar...

domingo, 26 de julho de 2009

10º ANIVERSÁRIO DA UNIDADE LOCAL DE SAÚDE DE MATOSINHOS

No passado dia 9 de Junho, completaram-se dez anos sobre a criação da Unidade Local de Saúde de Matosinhos (ULSM). Como é natural, todos os profissionais da ULSM se regozijam com tal facto.

O actual Conselho de Administração, através de uma comissão para o efeito constituída, elaborou um programa de comemorações que incluiu uma cerimónia presidida pela Sr.ª Ministra da Saúde, Dr.ª Ana Jorge (22 de Julho).
Essa cerimónia foi precedida, no mesmo dia, por um conjunto de realizações que se devem destacar:
- Inauguração da Unidade de Saúde Familiar de Leça do Balio, que contou com a presença da Sr.ª Ministra da Saúde e do Sr. Presidente da Câmara de Matosinhos, para além da óbvia representação do Conselho de Administração da ULSM;
- Apresentação de várias comunicações sobre actividades levadas a efeito por diversos Serviços e profissionais da ULSM nos últimos anos (auditório);
- Publicação de grande número de posters que dão a conhecer tantas outras actividades realizadas igualmente ao longo dos últimos anos (zona de acesso ao auditório);
- Exposição de obras (pintura e outras) da autoria de profissionais da instituição (auditório);
- Exposição de fotografias ilustrativas de diversos acontecimentos importantes para a ULSM, desde a sua génese até ao presente (átrio principal do Hospital, que será feita de forma itinerante pelas restantes unidades de saúde);
- Exibição de um vídeo sobre a instituição.
Momento alto do mesmo dia foi o painel que contou com as três personalidades envolvidas na criação da ULSM em 1999: - o Sr. Dr. Artur Osório (Presidente do Conselho de Administração do Hospital Distrital de Matosinhos); o Sr. Dr. Pinho da Silva (Presidente da ARS Norte) e a Sr.ª Dr.ª Maria de Belém Roseira (Ministra da Saúde).
Foi muito agradável recordar todo um conjunto de acontecimentos que permitiram o arranque de um novo modelo de organização da prestação de cuidados, de cujos méritos, vantagens e potencialidades comungavam as personalidades referidas.
A comissão organizadora do evento distribuiu um dossier com diversos documentos relacionados com as comunicações já referidas e também um outro, elaborado pelo actual Conselho de Administração, analisando a evolução da ULSM nos dez anos da sua existência.
Neste último, são feitas citações a publicações da autoria do Prof. Dr. Jorge Simões (2004), da minha autoria (2007-2008) e ao estudo de “Avaliação do impacto económico do novo Sistema de Organização dos Cuidados de Saúde Primários” (2007), realizado pela Universidade Nova de Lisboa.
Agradeço ao actual Conselho de Administração da ULSM a referência aos extractos da minha autoria.
Compreendo que para um documento deste género se seleccionam conteúdos pelo interesse que lhes é conferido por quem tem a responsabilidade da sua elaboração.
No entanto, um conteúdo retirado de um outro mais global e abrangente (ou eventualmente completado com elementos adicionais) é susceptível de uma interpretação não rigorosamente igual à que estava no pensamento do seu autor original.
Por esse motivo entendi que devia publicar o conteúdo global do que escrevi e disse em Setembro de 2007 (propositadamente lido na altura), por mim actualizado posteriormente com os resultados reportados a 31/12/2007, tendo em vista comunicações em eventos realizados em Portalegre e Portimão (2008), para os quais fui convidado com o objectivo de relatar a experiência da ULSM.
Esse conteúdo foi publicado na nossa Newsletter “Pulsar”, com uma composição gráfica adaptada ao espaço disponível.
Daí a não inclusão do texto (relativo aos resultados que constam das outras páginas, em gráficos) entre a primeira parte, que refere a “Estratégia” seguida pelo Conselho de Administração a que presidi, e a segunda parte que está intitulada de “Conclusão”.
O conteúdo escrito a que venho fazendo referência também foi por mim publicado em 12/03/2008 neste Blogue e em Novembro de 2008 no site http://partilhar.pt.to/ , que convido os leitores a visitarem.

Nele incluí uma página sobre o 10º aniversário da ULSM, tendo como anexo o meu texto e também o publicado em 22 Julho 2009 pelo actual Conselho de Administração.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O PARAFUSO

Conto tecnológico

Era uma vez um engenheiro.
Um dia, foi chamado para reparar uma avaria no sistema informático que a sua empresa tinha instalado numa grande companhia, poucos anos antes.
Diversos profissionais conhecidos do presidente da empresa já tinham sido convocados pessoalmente para o efeito mas, apesar dos honorários cobrados, tempo dispendido e recursos utilizados, não resolveram o problema.
O referido engenheiro, sentado em frente do monitor de um dos PC do sistema, digitou “meia dúzia” de teclas, abanou lentamente a cabeça, cochichou qualquer coisa para si próprio e desligou o aparelho.

Tirou do bolso uma pequena chave de fendas e apertou um minúsculo parafuso de um servidor.
Ligou novamente o PC e, com alguns testes, comprovou que o sistema estava a funcionar perfeitamente.
O presidente da empresa ficou impressionado e propôs-se pagar de imediato ao engenheiro.
“Quanto lhe devo?” – perguntou
“São mil euros, se faz favor” – respondeu o engenheiro.
“Mil Euros!? Mil Euros por uns minutos de trabalho!? Mil Euros por apertar a m**** de um parafuso!? Eu sei que o sistema informático custou uns milhões, mas mil euros pelo seu trabalho é um preço disparatado! Pagar-lhe-ei apenas se me enviar a factura perfeitamente detalhada e justificada!”
O engenheiro aceitou e foi-se embora.
No dia seguinte, o presidente da empresa recebeu a factura. Leu-a com toda a atenção e procedeu de imediato ao seu pagamento, sem qualquer objecção.
A factura dizia:
“Detalhes de serviços prestados:
Apertar um parafuso – 1 Euro

Saber que parafuso apertar – 999 Euro”