segunda-feira, 6 de julho de 2009

O PARAFUSO

Conto tecnológico

Era uma vez um engenheiro.
Um dia, foi chamado para reparar uma avaria no sistema informático que a sua empresa tinha instalado numa grande companhia, poucos anos antes.
Diversos profissionais conhecidos do presidente da empresa já tinham sido convocados pessoalmente para o efeito mas, apesar dos honorários cobrados, tempo dispendido e recursos utilizados, não resolveram o problema.
O referido engenheiro, sentado em frente do monitor de um dos PC do sistema, digitou “meia dúzia” de teclas, abanou lentamente a cabeça, cochichou qualquer coisa para si próprio e desligou o aparelho.

Tirou do bolso uma pequena chave de fendas e apertou um minúsculo parafuso de um servidor.
Ligou novamente o PC e, com alguns testes, comprovou que o sistema estava a funcionar perfeitamente.
O presidente da empresa ficou impressionado e propôs-se pagar de imediato ao engenheiro.
“Quanto lhe devo?” – perguntou
“São mil euros, se faz favor” – respondeu o engenheiro.
“Mil Euros!? Mil Euros por uns minutos de trabalho!? Mil Euros por apertar a m**** de um parafuso!? Eu sei que o sistema informático custou uns milhões, mas mil euros pelo seu trabalho é um preço disparatado! Pagar-lhe-ei apenas se me enviar a factura perfeitamente detalhada e justificada!”
O engenheiro aceitou e foi-se embora.
No dia seguinte, o presidente da empresa recebeu a factura. Leu-a com toda a atenção e procedeu de imediato ao seu pagamento, sem qualquer objecção.
A factura dizia:
“Detalhes de serviços prestados:
Apertar um parafuso – 1 Euro

Saber que parafuso apertar – 999 Euro”

quarta-feira, 24 de junho de 2009

METÁFORA

O Rei vai Nu
Uma história da nossa infância...
Este conto fala-nos de um rei que era muito vaidoso e “convencido”.

Certo dia, dois trapaceiros resolveram aproveitar-se desta sua peculiaridade.
Disseram-lhe, então, que haviam encontrado um tecido muito belo, que apenas os mais inteligentes eram capazes de ver.
Conseguiram que o rei logo quisesse comprar um fato de tal raridade, a fim de mais bonito parecer e para poder testar a qualidade intelectual da sua corte.
Algum tempo depois, o monarca decidiu sair com a sua “vestimenta” e mostrar-se ao povo.
Toda a gente olhava admirada para o rei, pois ninguém queria mostrar-se parvo.
A dada altura, uma criança, na sua inocência, gritou: -“Olha, olha! O rei vai nu!”
A história d’ “O rei vai nu” adverte-nos do perigo de, ao sermos demasiado vaidosos ou “convencidos”, ficarmos mais frágeis, menos lúcidos e capazes de usar a razão, enfim, mais susceptíveis de errarmos e cairmos no ridículo.
Por outro lado, fala-nos do medo de nos afirmarmos perante os outros, de expressarmos o que pode ser rejeitado, “censurado” ou contribuir para que não nos aceitem, ainda que seja por demais óbvio.
Todos viam que o rei estava nu, mas só uma criança, que não teme ainda a “censura”, a “rejeição social”, porque delas não tem consciência, foi capaz de o denunciar publicamente.
A inocência infantil poderá, porém, ser substituída pela coragem de alguém que ouse ir «contra a maré».
Se algum adulto, de entre os muitos que assistiam ao desfile, tivesse dito bem alto a verdade, poderia ter igualmente desencadeado a reacção colectiva.
Por isso, esta história constitui igualmente um estímulo à intervenção corajosa, ousada, sustentada na verdade.
Adaptado de “Bettelheim e Carochinha” - 2008

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O EXEMPLO

António Barreto é uma das personalidades portuguesas que possuem o “estatuto” de poder exprimir o seu pensamento quando e como considera oportuno, sendo respeitado pela generalidade dos seus concidadãos, mesmo quando os que o ouvem com ele não concordam ou se sentem “desconfortáveis” com as suas palavras.

No passado dia 10 de Junho teve uma intervenção notável.
Como dizia José Manuel Fernandes no seu editorial de 11 de Junho, no Público, “…Enfie o barrete quem sentir que ele lhe serve, mas aquelas palavras mereciam ser afixadas por todo o lado…”.
Permitam-me que reproduza o que constitui para mim o extracto mais significativo do seu discurso:
“…Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.
Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.
Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores.
O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes.
Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna.
Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber.
Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder.
Dos que têm mais responsabilidades, cujo "ethos" deveria ser o de servir.
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil!
Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar "sinais de esperança" ou "mensagens de confiança". Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica.
Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará.
Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá.
Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á.
Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos.
Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo.
Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país."

sexta-feira, 15 de maio de 2009

MERITOCRACIA: - PRECISA-SE !

Estando atento aos diversos acontecimentos da nossa sociedade, política e economia, parece-me, infelizmente, muito actual e presente o discurso de Nicolau Maquiavel de alerta ao povo para os perigos da “tirania”.
Ele escreveu na sua obra mais mediática, "O Príncipe",
"...porém, a maneira como se vive está tão afastada da maneira como se devia viver, que aquele que deixa aquilo que se faz por aquilo que deveria fazer-se aprende mais a perder-se que a salvar-se, porque um homem que queira em tudo professar o bem arruína-se entre tantos que não são bons".
Não será este o maior problema da nossa sociedade? Uma total inversão dos verdadeiros valores!
Bom, apesar deste contexto eu sonho com uma realidade de ética no trabalho.
O período anterior à presente crise falava-nos de um mundo de trabalho pragmático, objectivo, técnico e privado de moral, como pudemos constatar.
Agora, julgo que se começa a sentir a necessidade de novos comportamentos, mais éticos, e sobretudo no ambiente de trabalho.
É tempo de entrarmos na era da humanização, no primado das pessoas, em que é privilegiado o desenvolvimento da identidade pessoal nas várias experiências profissionais e empresariais.
Por isso, nunca como agora, foi tão importante a atenção às relações psicológicas interpessoais, à gestão de conflitos, às técnicas de motivação e à tentativa de fortalecimento das personalidades dos colaboradores.
Estará o(a) estimado(a) leitor(a) a pensar, mas primeiro temos que salvar a empresa, ter um balanço robusto e equilibrado, que permita a competitividade a médio prazo.
E eu estou plenamente de acordo com essa prioridade, mas simplesmente acredito que é insuficiente se não houver uma maior consciência ética.
Não podemos ver o problema como mera sobrevivência, mas também no papel que uma empresa poderá ter na expressão de talentos individuais, na realização de sonhos, alimentando motivações, força, energia e entusiasmo que poderá servir de inspiração a comportamentos éticos e tornar-se num "projecto maior", onde todos são elementos activos, onde podem crescer e desenvolver continuamente as capacidades pessoais e organizacionais.
E estas mudanças têm que partir do topo.
Dos gestores, dando o exemplo e incentivando uma nova cultura empresarial, que deverá ser muita mais aberta, flexível e exigente.
Para isso é fundamental que se implemente uma gestão com base na meritocracia, assente no mérito das pessoas, onde as posições hierárquicas são conquistadas com base no merecimento e com uma predominância de valores associados à educação, formação e competência.
Este desafio de que falamos é enorme, pois quase implica uma conversão do "coração do Homem", mas é necessário para evoluirmos e nos tornarmos uma sociedade e uma geração em que os nossos filhos e os nossos netos se orgulhem.
E nunca é tarde, vejamos o recente caso de Susan Boyle, de 47 anos, desempregada, que emocionou o mundo com a sua humildade no programa "Britain's got talent".
Recebida com cinismo, risos e desconfiança, pela sua modesta aparência, ela exaltou o público e calou o júri quando começou sua interpretação de ‘I dreamed a dream', do musical "Les miserables".
É um exemplo claro de como a nossa sociedade faz juízos de valor antes do tempo.
E isto não acontece apenas em programas de entretenimento, é usual entre grupos, em organizações, nas empresas, na política. faz parte das nossas vidas.
Mas tem que ser erradicado.
Já reparou que o trabalho nas empresas, de um modo geral, tornou-se num lugar agressivo, mau, esgotante, fonte de angústias e depressões?
O colega é sempre um inimigo potencial, a comunicação é falseada, não é autêntica e para se fazer carreira é de algum modo necessário boicotar a dos outros colegas.
Ora, há muito tempo que o trabalho já não é fonte de auto-realização, de expressão das capacidades individuais, que não é sustentado por motivações pessoais.
Para inverter esta situação é necessário que no topo das empresas se comece também a dar importância a estes temas e definir como uma das principais prioridades a meritocracia.
In Diário Económico, 22/04/2009
Bruno Valverde Cota, Doutorado em Gestão de empresas e especialista em assuntos de Marketing e Comunicação